segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Carona pelo interior sergipano - 21/01/2008

Na Segunda-feira, pegamos um ônibus até a saída da cidade. De lá, andamos no sol forte das 09h30 até um trevo que ligava Paulo Afonso a Canindé de São Francisco, passando por Xingozinho. Não passavam carros por ali. Parou um caminhão-pipa. Ele estava esperando um comboio com mais 08 caminhões para abastecer de água algumas cidades da redondeza. É, a seca é brava nessa região, apesar do rio estar correndo ali do lado. Parou o chefe do comboio em uma caminhonete. Nos deu carona até Xingozinho. Ali, o sol já estava muito forte e nos refugiamos debaixo de um ponto de ônibus. Estávamos em um vilarejo. De vez em quando, batia um vento. Um morador nos informou que passaria uma van em uma hora e meia. Não tive dúvidas: montei minha rede ali no ponto mesmo. A van chegou e, por R$3,00, fomos até Canindé, já mortos de fome.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Canindé de São Francisco - 21/01/2008

Chegamos em Canindé e o dono do bar não quis vender 1 Prato Feito para nós dois. Fiquei indignado e fomos procurar outros lugares. Antes, passamos por um dormitório. Pagamos R$6,00 cada um. Deixamos nossas coisas e fomos procurar um restaurante. o dono nos fez 1 PF por R$4,00, permitindo-nos dividir o prato. Mais do que isso, acabou dando-nos dois pratos pelo preço de um. Nas tantas, chega um ônibus de uma universidade federal da bahia, cheio de estudantes de jornalismo que investigavam sobre algum tema que nem me lembro mais. Já não me lembrava mais do estilinho universitário. Meninas lindas e fresquinhas e rapazes barrigudos e barbudos. Dali, fomos direto ao rio. Tínhamos que descer uma estrada. Mais uma carona fácil.

Ali ao fundo, a represa do Xingó.

Passamos a tarde no rio, que estava contido pela represa do Xingó. O rio, ali, é bem azul. Águas calmas, muitas pedras escuras para fora e salva-vidas controlando os banhistas na prainha. Na volta, outra carona fácil. Paramos no começo da cidade para nos informar do passeio ao Cânion do Xingó. Reservamos nossas vagas. À noite, fizemos nossa comida. Tomei um banho e fiquei contemplando a lua. Ouvi alguns sons pela cidade e música alta. Falei para a Maíra irmos dar uma volta, naquela Segunda-feira pacata no interior do Sergipe. Pelo incrível que pareça, um circo na cidade! Pagamos R$3,00 pelo espetáculo. Caro, para os padrões da localidade. Primeiro número, dois malabaristas. Em seguida, um palhaço, uma gostosa dançando, um equilibrista que colocava um carrinho de areia no queixo, outra gostosa dançando e mais um palhaço... Pois é, eram números estranhos mesmo. A todo instante, o apresentador reclamava que o preço era aquele mesmo e que o povo de Sergipe não sabia prestigiar a arte circense. Até que de repente, entra um cantor divulgando seu trabalho. Era Alves Correia e as Bundudas, lançando o CDeu Derrubados. O cara era um político se aventurando na música. Sua grande sacada era fazer do auto-desprestígio o sucesso. Na real, a grande sacada dele eram as bundudas. Eu havia visto num cartaz as moças. Não dei nada. Até que elas entraram no palco. Sim, eram todas muito bundudas. Aqueles trazeiros enormes mesmo. Muito grandes mesmo. Imensos. Uma loira, uma morena, uma índia e uma preta. A loira, era super malhada com uma bunda gigante. Boa. A morena, linda com uma bunda gigante. Delícia. A índia, com seus cabelos compridos até a cintura e uma bunda gigante. Sensual. A preta, era a mais linda de todas, também com uma bundona. Um sonho. Elas dançando e o Alves Correira fazendo piadas. O público se divertindo. Eu, babando. Estava babando mais do que cachorro na frente da televisão de cachorro (aquelas máquinas de assar frango). Era incrível aquele show. Um monte de gostosas com seus bundões, com um sujeito atarracado fazendo piadas e quebrando as pernas de qualquer um que tentasse lhe sacanear. Fiquei ali babando sem pudores. Babei literalmente. Estava quase precisando de um babador. Até que chamaram alguém para ir dançar com uma das bundudas. Eu já tinha escolhido meu alvo: a preta. Porém, a coragem sumiu. Apesar da Maíra ter feitos gestos para me chamarem, quem acabou ralando as cochas num forrózão, com a mão no meio do bundão da morena, foi um felizardo da região. Aprendi que não devemos interferir nos hábitos das localidades que visitamos. O show terminou, minha salivação cessou e fomos dormir todos felizes. Quer dizer, eu fui dormir feliz, de pelo menos ter satisfeito meus desejos escópicos.

sábado, 19 de janeiro de 2008

Cânion do Xingó - 22/10/2008

Acordamos e pegamos uma carona até o rio. Ali, outra carona pela estrada de terra até o museu de arqueologia. E mais outra carona com um casal de amigos até a represa. Lá, pegamos o passeio das 10h30. R$32,00 cada um. Aquele clima era-me completamente estranho. Turistas. Eu, que achava ser um turista, dei-me conta que havia me tornado um viajante. Aquela quantia de dinheiro era exorbitante. Uma amiga me mostrou umas fotos e vi que era um passeio imperdível e, por isso, decidi fazê-lo. O catamarã saiu com um ligeiro atraso. As conversas e as posturas das pessoas me eram avessas. Esse dia senti na pele como é ser de outra casta. Eu era um peixe fora d'água. Aquele mundo de ostentação era estranho. O passeio foi lindo. No começo, muita água azul. Aos poucos, viam-se casas. Diziam que muitas delas ficaram de baixo d'água e que os pescadores foram indenizados. Acredito. Também diziam que havia um sítio arqueológico e que, antes da enchente, fizeram pesquisas suficientes. Outro fato em que acredito. Após quase uma hora, chegamos ao Cânion. Antes das águas, era o quinto maior do mundo. Após as águas, o maior navegável do mundo. Outro fato memorável. Finalmente, chega num ponto em que podemos cair na água verde. É maravilhoso. A água é geladinha e se pode nadar à vontade. Uma delícia. Muito lindo mesmo. Valeu a pena.

Cânion do Xingó.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Piranhas - 22/01/2008

Depois, mais outra hora pra voltar, carona com o casal até a represa, pra tirar umas fotos, mais outra carona até a cidade, pegar nossas mochilas, outra carona até o trevo de Piranhas, outra carona até o centro da cidade e, finalmente, a última carona até Piranhas velha.
Chegamos! Piranhas velha tem esse nome porque ficaria de baixo d'água se fosse concretizada a represa em Pão de Açúcar. A cidade é histórica.

Arquitetura típica do sertão há uns anos.

Ali perto, em Angico, Lampião e seu bando foi emboscado e dizimado. É uma cidade pequenina, toda conservada, com casas típicas de 1900, pintadinhas, com uma prainha e um rio lindo. Das cidades que visitei, é a mais linda, sem sombra de dúvidas. Por isso mesmo, há uma pequena estrutura turística. Isso quer dizer que as pousadas custavam, por baixo, R$50,00. Foi chato descobrir isso lá em baixo. Pelo menos, tomei um banho no rio, conversei com um pescador e acertamos de tentar pegar uma carona com ele para conhecer o rio sobre sua canoa no dia seguinte.

Piranhas velhas, vista de um de seus mirantes.

Subimos pra piranhas nova de carona com um trio de estudantes. Um deles fazia um TCC sobre a transposição do rio. Para seu espanto, a maioria das pessoas estava a favor desse projeto. Deixou-nos num dormitório de R$6,00. Ficaram abismados com nossa disposição de ficar apenas em pulgueiros. Os donos eram muito simpáticos. Deixaram que usássemos a cozinha para nossas refeições. O mais incrível dessa viagem foi que muitas pessoas tinham dó da gente. Viam que éramos indefesos e nos ofereciam uma série de benefícios. Aprender a fazer cara de coitado tem suas vantagens. Gostei da receptividade e empatia do brasileiro do interior do país. Isso só existe aqui. Europa? Primeiro mundo? Na manhã seguinte, acordamos tarde. Descemos ao rio depois das 14h, quando o sol já estava mais ameno. Mais uma vez, nadamos no rio e conversamos com o pescador. Não haveria carona alguma. Ficamos até escurecer. Visitamos todos os pontos da pequena cidade. Tem dois mirantes e a vista é incrível. Vale a pena visitar essa cidade. Acabamos não indo pra Angico. Recusamos pagar mais R$35,00 só pra visitar uma "gruta" com as tumbas dos cangaceiros.


Dia de lua cheia. Auuuuuuuuuu...

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Carona pelo interior alagoanos - 24/01/2008

Na manhã do dia seguinte, uma carona difícil. Vimos que não haviam estradas que seguiam rio abaixo. Portanto, decidimos pular algumas cidades e ir direto para Penedo. Teríamos que passar por Olho d'Água do Casado, São José da Tapera, Olho d'Água das Flores, Monteirópolis, Jacaré dos Homens, Batalha, Jaramataia e, por fim, Arapiraca. De lá, mais 3 cidades até Penedo. Ou seja, um longo trajeto. Conseguimos uma carona para a primeira cidade com uma caminhonete pau-de-arara. Fácil. Andamos alguns metros e nos posicionamos numa sombra. Lá, parou um caminhão indo pra Arapiraca, cheio de côco. Estávamos com sorte. Até que o motorista pegou um côco pra gente tomar. Segundo ele, alguns côcos, entre os mais de 6000 contidos no caminhão, não fariam diferença. Ele pegou o canivete e abriu um para bebermos. Deu partida e eu, com meu canivete, fui abri-lo. O utensílio fechou. Com meu dedo mindinho no meio. O sangue, correndo. O buraco, enorme. A angústia, de castração. Para estancar, papel higiênico. De repente, acordei com dor de cabeça forte e necessidade de deitar. Havia desmaiado e me retorcido inteiro por duas vezes, segundo posterior relato da Maíra. O motorista, desesperado. Paramos. Deitei. Um aglomerado de pessoas ao meu redor. Levaram-me pra um posto de saúde em um distrito pequeno distante da cidade. Repousei. Um curativo simples. A enfermeira disse que essa reação foi do medo de ver sangue. Não foi dessa vez que virei o Lula. Uma senhora ofereceu a casa para descansar. Dizia que seu lar era simples de mais para receber-nos. Claro, não fizemos drama algum para afirmar que queríamos ir para lá. Fomos até lá e dormi a manhã inteira. Almoçamos sua comida simples. Uma casa sem água encanada. Dormi mais um pouco depois da refeição. Levantei-me melhor. Decidimos ir para a estrada, pois seria muito incomodo permanecer ali. Na estrada, para o primeiro carro. O sujeito me olha e, sem eu dizer nada, fica comovido com os dois viajantes ali parados a seu lado. Oferece-me R$1,30. Eu recusei, dizendo que preferíamos uma carona. Se fosse pelo menos R$5,00, eu teria aceitado de súbito. Parou mais um pau-de-arara, que aceitou nos levar de carona. Colocamos as mochilas na parte de cima, amarradas por cordas. Junto estava o "gostosinho", o meu querido violão. Saímos e, após alguns minutos, dentro dos quais todos já estavam sabendo e perguntando detalhes de nossa peripécia, o gostosinho resolve alçar vôo. Como ele não tem asas, estatalou na estrada e se arranhou. Sai correndo atrás dele. O carro, foi buscar-me em sua marcha ré. Após um breve exame, vi que ele também havia se assustado à toa. Foram duas lascas a menos e uma peça descolada. Seu som não ficou prejudicado. Definitivamente, havia me dado conta que aquele era um dia de silêncio. A cada cidade que passávamos, eu dizia seu nome. Um dos passageiros ficou abismado com minha sabedoria. Decido contar-lhe o segredo. Em toda entrada de cidade, há um letreiro enorme com o nome da mesma. Bastava-me ler o nome e pronunciá-lo. O rapaz se satisfez com minha explicação.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Arapiraca - 24/01/2008

Arapiraca no fim de tarde. Pisamos na cidade e uma leve garoa desceu até nós. Lembrei-me de São Paulo. E agradeci a Deus por mandar água para aquela região. Todos estavam clamando por água. Mês de janeiro não choveu o esperado e as águas estavam muito abaixo do nível esperado. Anuncio de crise energética nos jornais, prejuízos na agricultura, desolo de sertanejos. Procurei uma hospedaria. Deixamos nossas coisas e fomos dar uma volta na cidade. Compramos muitos legumes para fazer uma sopa sustanciosa. Afinal, eu era um ferido de guerra nesse dia. Como todo coitado, fui procurar afago em algum lugar. Resolvi que, nesse dia, o local eleito era o hospital. Fomos para em um posto de saúde, esperamos quase 01h e, em seguida, a enfermeira me deu atenção. Enquanto fazia-me um curativo, vi que o drama era demasiado. Voltamos ao hotelzinho, comemos e dia seguinte, mais caronas.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Carona até Penedo - 25/01/2008

Logo cedo, dei-me conta de mais uma característica do povo dessa região. Ao se perguntar alguma informação, a pessoa quer logo dar mais informação e, no fim das contas, a informação sai tão confusa que não se compreende nada. Era preciso perguntar para mais de duas pessoas diferentes a mesma coisa, para enfim construir um conhecimento suficiente para nos deslocarmos. Nesse dia, essa pequena constatação ficou mais clara. Foi difícil fazer o interlocutor entender que queríamos chegar apenas na BR, e não em alguma cidade. Após nos fazermos compreender, chegamos até a estrada. O cobrador se equivocou e tivemos que parar no meio do nada. Para sair dali, uma van. R$2,75. Chegamos num trevo e a chuva cai forte. Num barzinho, resolvi agraciar os clientes com música. A chuva parou e fomos até um local privilegiado para caronas. Pára um moço com seu filho pequeno no banco trazeiro. Seu assunto era exclusivamente sobre posses materiais. Contou-nos de João Lyra, dono de quase todo Alagoas. A paisagem era única nessas bandas: cana e mais cana de açúcar. Incrível. Falou de política e do dinheiro que investiu em um homem, para ter benefícios. Enfim, pediu dicas sobre São Paulo ou Tocantins para abrir um negócio próprio. Deixou-nos em Penedo, após gabar-se da quantia de dinheiro que conseguia ganhar. Vai entender o ser humano.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Penedo - 25/01/2008

Penedo me fez lembrar Ouro Preto, em Minas Gerais. Acabei lendo que era considerada a Ouro Preto alagoana em um jornal, posteriormente. Uma cidade cheia de ladeiras, coqueiros, chuva, rio açoriado, casas típicas e arquitetura de 1700 a 1900. Em cada cantinho, respirava-se um pouco de história. Conseguimos nos hospedar na Pousada do Ribeirinho. Esse dia, mandei a Maíra procurar.

Arquitetura de 1700, 1800 e 1900. Nos anos 50 e 60, a cidade sediava o festival internacional de cinema, hoje realizado em Gramado.

Durante a viagem, configuramos uma divisão de funções. Em geral, eu era quem procurava hospedagem, enquanto ela esperava com as mochilas em alguma sombra. Enquanto ela procurava, passaram dois mochileiros. Conversei com eles. Franceses. Sabiam que o rio São Francisco era o segundo rio mais importante do país. Creio que poucos brasileiros sabem dessa informação. Andando na chuva pela cidade, fomos descobrindo o charme daquele local. Nessa sexta-feira à noite, decidimos ir até o bairro de Toinho Pescador, um homem que a outra Maíra e o trio de estudantes nos recomendaram conversar. Na caminhada até o bairro, encontrei um homem que confeccionava bonecos gigantes e toda classe de bonecos. Tinha um ar de importante. Explicando: usei o truque do "ler alto o nome escrito em letras de Itú" quando entrei no ateliê do homem. Ele se sentiu importante. E minha primeira pergunta foi: "o senhor sabe onde é a casa de Toinho Pescador?". Conversamos um tempinho com o fulano dos bonecos. De fato, ali era uma terra de artistas. Caminhando até a casa de nosso procurado, mais artistas se manifestavam no interior de suas casinhas. Encontramos a casa de Toinho facilmente. Todos o conheciam. Seu bairro era um bairro industrial antigamente. Era um bairro periférico. Sua mulher estava em casa e nos recebeu. Contou-nos que trabalhou na fábrica e da luta de criar os mais de 10 filhos. Toinho não estava. Demos uma volta pelo bairro e voltamos para esperá-lo. Quando chegou, nos recebeu bem. Um negro velho contador de histórias. Um homem simples. Pescador há anos. Um poeta. Proclamou duas poesias para nós. Um militante. Contou-nos que sua luta pelo rio começou há muitos anos, pelo incentivo de um bispo que auxiliava o povo a sobreviver. Atualmente, Toinho é uma referência inquestionável sobre qualquer coisa que se diga sobre o rio. Um bom marido. Contou-nos que quem o incentivou ao ativismo foi sua mulher. Achei lindo esse companheirismo entre eles. Um homem digno. Foi pescador e criou todos os filhos com a força de seus braços no rio. Inteligente. Articulava o discurso de maneira simples e profunda. Um homem de Deus. Fé e perseverança eram seus lemas. Rio São Francisco vivo: terra, água, rio e povo. Sai de lá com uma leveza na alma. Sua última pergunta para nós foi sobre militância. Disse-lhe que essa viagem não foi em favor de nenhum movimento. Havia sido a maneira que encontramos de conhecer melhor o rio, o povo e as opiniões sobre a transposição. Aquilo tudo me fez refletir sobre meu papel na luta pela vida ao longo do rio. Cheguei à conclusão que o alcance e limite de minha atuação era a de um turista, que ao viajar ao longo do rio, trazia para as pessoas próximas a lembraça de sua existência. E isso é muita coisa, apesar de, paradoxalmente, não ser nada ao mesmo tempo. Se todas as pessoas fossem fazer uma viagem a um trecho do rio, tenho certeza que ele estaria bem diferente atualmente. Por isso mesmo que me dei conta de uma transformação pela qual estou passando. Antigamente eu teria levantado bandeiras, encarado debates, enfrentados críticas e vociferado jargões politizados. Hoje, dou-me conta que o protesto é necessário, mas há diferentes formas de fazê-lo. Decidi ser uma pessoa pacífica. Portanto, essa viagem pelo rio São Francisco foi uma forma pacífica de atrair a atenção para as questões que circulam a seu redor.

Centro de Penedo.

Sábado fomos andar mais um pouco pela cidade. Algumas pessoas diziam que em Sergipe, mais precisamente em Neópolis, haveria uma prévia de carnaval, com muito frevo. Fomos até o porto e pegamos carona com a balsa e com um ônibus. Nos deixaram no centro da cidade. Era apenas boato. Não havia nada ali. Após um descanso, pagamos a lancha-circular e voltamos a Penedo. Sábado à noite e a cidade completamente vazia. Não havia praticamente ninguém na rua. Uma cena engraçada: na beira do rio, há um bar chique. Queríamos comer macaxeira frita. Eu, com minhas roupas sujas, fui perguntar da iguaria ao garçon. O moço, gentilmente, me disse que ali não havia tal alimento e que, talvez, eu acharia em outro lugar, mais simples. Foi a única pessoa na viagem que olhou para mim e identificou a necessidade do cliente. Bom esse cara. Após a frustração de um Sábado à noite monótono, decidimos seguir viagem para a última cidade na beira do rio São Francisco.

domingo, 13 de janeiro de 2008

Piaçabuçu - 27/01/2008

Pegamos uma lotação para Piaçabuçu, a apenas alguns kilometros dali. Durante o percurso, duas mulheres se insultando. Chegamos na cidadezinha e estava tendo festa do Bom Jesus. por sorte, conseguimos um hotel por R$10,00 cada um. Caro, mas tudo estava lotado. No cais, tentei conversar com alguns pescadores. Já era meio dia. Todos ficariam ali para ver a procissão. Ou seja, foz do rio só dia seguinte. Combinei com um deles para que nos levasse até lá. Topou. Ficamos mais tranquilos e fomos ver a tal da procissão. Era uma estátua de Jesus sobre um barquinho. O povo levava a imagem pelas águas e, depois, pelas ruas. Foi bonito.

Procissão do Bom Jesus em Piaçabuçu.

Depois, festa, com duas bandas famosas. Acontece que meus ânimos não estavam lá dos melhores. Dia seguinte a grande viagem acabaria. Fiquei de mal-humor. Nem esperei a primeira banda terminar, resolvi ir dormir.

Cais de Piaçabuçu.

sábado, 12 de janeiro de 2008

Foz do Rio São Francisco - 28/01/2008

Acordamos, naquela segunda-feira dia 28 de Janeiro de 2008, com muita chuva. Passaram-se 5 semanas. 33 dias. Uma longa viagem. Após todo esse percurso, a dificuldade final. Andando na chuva forte, nos dirigimos até o cais. O nosso pescador não estava lá. Após alguns minutos aparece um pescador. Não iria para a foz. Depois de um tempo, aparece outro. Disse-me que nos levariam, só que mais tarde. Esperamos quase a manhã toda. O terceiro pescador não foi muito amistoso. Disse-nos que não garantia nos levar. Já era quase meio dia. Estávamos ali desde as 08h00. Comecei a conversar com alguns pescadores. Um deles me disse que o melhor era sempre conversar com quem era de confiança, como ele mesmo se auto-afirmava. Contou que um caroneiro foi e nunca voltou. Ai, em seguida, foi falar com outro cara e, de repente, tínhamos uma carona até Barra, um povoado no lado de Sergipe, com um cara ponta firme. Dali, teríamos que nos virar para ir para Alagoas, onde estão as belas dunas. Aceitei. No mesmo instante, o pescador do começo da manhã aparece. Fomos com ele. Estavam com mais dois colegas, 7 passageiros e nós dois caroneiros. Nossa primeira carona de barco.

Última carona, de barco, até a foz.

O rio estava tão seco e açoriado, que não circulavam mais barcos e a população preferia utilizar os carros, pois era mais econômico para todos. O pescador deixou a todos em Barra e nos levou até Alagoas. Sua dicção era muito ruim. Eu mal entendia o que ele dizia. Mesmo assim, nossa comunicação foi muito boa. Durante a travessia, contou-no de "mãozinha", um vendedor de artesanato que ficava ali nas dunas. Eles nos levaria de volta. Em Alagoas, mãozinha não havia ido trabalhar. Então, uma vendedora nos ofereceu carona. O pescador ficou aliviado e foi embora, de baixo de muita gratidão de nossa parte.

Conseguimos!

Por conta de uma exigência do IBAMA, as dunas podem receber visita apenas por 1h30 dos turistas. Naquele momento, a última leva deles ficaria por mais 20 minutos. Foi o tempo de subir as dunas, relaxar, comer um bolo e uma maçã, contemplar a paisagem, agradecer a Deus pela viagem, rever todo o percurso, ter muitos pensamentos e sensações, sentir gratidão no coração, entrar no rio e sair de alma lavada.


Vídeo em uma das dunas, ali na foz do São Francisco.

Foi simplesmente incrível chegar até ali. Uma coisa mágica. Praticamente 3000km (2830km, para ser mais preciso). Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Sergipe e Alagoas. Muita coisa boa aconteceu nessa viagem. Depois que me deixei levar pelo fluxo do rio, perece que tudo se manifestava como magia. Era lindo o que víamos. Beija-flores, árvores, águas correndo, pôr-do-sol, cachoeiras, animais silvestres, pedras, festas populares, pessoas boas, auxílio no momento certo, bons fluidos. Foi tudo muito bom. Uma viagem inesquecível. Aos poucos, eu fui relaxando e deixando para trás o habito paulistano. Passei a ter outro ritmo. Tempo de serenidade. Paz. Paciência e esperança. Eu ali, olhando aquele rio lindo, com suas águas calmas, desembocando no mar, com suas águas furiosas. Ali, no mar, havia um farol. A cidade de Sergipe fora inundada pelo mar. As dunas eram misteriosas. Um silêncio denso no ar. Senti a paz no coração e muita gratidão. Finalmente consegui o que estava buscando: a paz e a harmonia com Deus. Depois do banho nas águas do rio (que ao longo deve vi receber toneladas de sujeira - o que me deu certo nojo), o moça do artesanato nos chamou. Seu barco já haviam três pessoas. Disse-nos que o outro rapaz nos levava. Deu-nos mangas deliciosas para comer e insistiu no fato de que daria carona se não houvesse outro barco ali.


Do lado direito, Sergipe. Do esquerdo, Alagoas. Ao fundo, chuva no mar, bem no encontro das águas do rio.

O barqueiro era um fiscal. Ele controlava o respeito à regra do IBAMA. Navegou alguns metros rio acima e parou em um manguezal. Queria nos mostrar outros lugares. Dizia que era para poucos privilegiados. Conduziu-nos às mais altas dunas da região. Do topo, via-se o mar, a foz, o rio, as dunas, a floresta, Piaçabuçu e até Penedo. Simplesmente lindo. Senti muita paz naquele lugar. Contou-nos que, ao enfrentar algum problema, ia visitar o "escritório", para contemplar o encontro do mar com o rio. Sentou-se e ficou olhando aquela paisagem. Ensinou-nos sobre os cajueiros. Comemos alguns deles. Até que nos mostrou um cajueiro solitário, desgarrado do bando. Aquele era o símbolo da vida, segundo ele. A árvore não crescia mais do que aquilo (era pequena). No entanto, não desistia. Aquilo era uma lição de persistência e de como devemos ter nossas atitudes em nossas vidas.

O pequeno cajueiro.

Também nos falou sobre o espírito. Foram palavras simples, porém complexas. Meditei dias sobre tudo aquilo. Pegou um atalho diferente para voltar à cidade. Passou por um vilarejo e por canais de mangue. Senti uma serenidade indescritível. Falava-nos sobre os caranguejos. O silêncio falava por nós. Por fim, parou na casa de um conhecido, na beira do rio. Pegamos algumas mangas de várias variedades. Voltamos para a cidade e nos despedimos dele. Tudo o que aconteceu, considero como um presente. Um sinal da aliança de um ser humano com a bondade de Deus.